A Conscientização sobre as Mudanças Climáticas, mas e o Brasil?


O aceleramento das mudanças climáticas globais vem trazendo reflexões e debates com o intuito de adotar meios para mitigar as emissões de gases de efeito estufa.


O efeito estufa é um fenômeno natural em que alguns gases da atmosfera retém parte da radiação solar emitida de volta pela superfície terrestre, não deixando que essa energia se dissipe para o espaço, com isso, garante temperaturas adequadas para que haja vida na terra. Portanto, é um fenômeno benéfico, o que se discute é o aumento do efeito estufa causado por fontes humanas e que traz graves impactos.

O agravamento dos impactos das mudanças climáticas são causados pelo aumento do lançamento dos gases de efeito estufa na atmosfera, principalmente o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4), grande parte liberados por atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão), o desmatamento de florestas e atividades agropecuárias.

A estimativa é que tais atividades contribuam para o aumento de 2 graus celsius até 2050, se medidas ambiciosas de controle não forem adotadas com urgência. O que será suficiente para causar eventos climáticos extremos, como desequilíbrio nas temperaturas; aumento do nível do mar – causando inundações e até desaparecimento de ilhas e cidades costeiras; aumento de furacões, tornados, tsunamis, tempestades, secas severas e prejuízos na produção agrícola. Portanto, existem riscos à perda de biodiversidade, à vidas humanas e de instabilidade econômica global.

Por essa estimativa, a ONU vem realizando encontros com representantes de países para que se comprometam em reduzir as suas emissões de gases de efeito estufa. O primeiro sobre esse tema foi a Eco 92, realizado no Rio de Janeiro, e, resultando na Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. A partir de então, vieram outros encontros denominados de Conferência das Partes (COP), como o Acordo de Paris (COP 21), firmado em 12 de dezembro de 2015, por 195 países.

No Acordo de Paris foram definidas metas para limitar o aumento do aquecimento global a 1,5 graus Celsius até o fim do século. Mas segundo o relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) o compromisso assumido na época, será insuficiente para conter o aumento das temperaturas nesse valor até 2100.

Por isso, a cúpula realizada recentemente em dezembro de 2020, de forma virtual devido a pandemia, teve como intuito atualizar metas propostas anteriormente no Acordo de Paris. Essa cúpula foi um evento preparatório para a próxima Conferência das Partes (COP 26), que será realizada em novembro de 2021, na cidade escocesa de Glasgow.

Nela, diversos países anunciaram novos compromissos de neutralizar os gases do efeito estufa. Dentre as principais economias que apresentaram novas metas, apenas Reino Unido, União Europeia, Chile, Argentina, Ucrânia e Quênia representaram mudanças significativas. Já outros países apresentaram metas sem nenhuma melhoria e, alguns, até retrocederam. Entre esses, o Japão já reconheceu que suas metas foram pouco ambiciosas e prometem melhorias.

Há expectativas para que China e Estados Unidos, os maiores poluidores do planeta, apresentem metas ambiciosas na próxima cúpula. Os EUA, com o presidente Joe Biden, está voltando ao Acordo de Paris após quatro anos de retrocesso e negacionismo com o ex-presidente Donald Trump.

A China, por sua vez, vem fazendo promessas ambiciosas de alcançar a neutralidade de emissões de carbono antes de 2060, mas ainda precisa entregar as suas novas metas.

Quanto ao Brasil, o país já deixou de ser uma liderança sobre o tema, e ficou fora da cúpula por não apresentar metas ambientais suficientes. Pelo contrário, apresentou um plano de ação que permitirá chegar a 2030 emitindo gases do efeito estufa muito acima da meta definida no Acordo de Paris. Para piorar, a promessa feita no Acordo de Paris em zerar o desmatamento ilegal da Amazônia até 2030, nem foi mencionada.

O país é o 6° maior emissor de gases de efeito estufa (o desmatamento responde pelo maior volume de emissões) e, atualmente, passou a ser reconhecido internamente e no exterior, como um país que adota uma política antiambiental.

Como demonstra um estudo realizado por pesquisadores da UFRJ, intitulado como "A pandemia por COVID-19 como oportunidade para enfraquecer a proteção ambiental no Brasil". De janeiro de 2019 a setembro de 2020, o governo do presidente Jair Bolsonaro adotou 57 atos legislativos que serviram para enfraquecer as regras de preservação ambiental. Ainda segundo o estudo, foram atos infralegais, que independem de aprovação do Poder Legislativo. O estudo foi baseado sobre desregulamentação e flexibilização ambiental em atos publicados no Diário Oficial da União, sobre o desmatamento da Amazônia do INPE e sobre multas ambientais associadas ao desmatamento ilegal do IBAMA.

Além dos retrocessos na política ambiental, a visão de desenvolvimento insustentável, aliada ao desflorestamento da Amazônia, tanto para exploração mineral como para a agropecuária, defendida pelo atual governo brasileiro nas falas do próprio presidente, é uma visão retrógrada, visto que hoje é de conhecimento que a floresta vale mais em pé, devido aos serviços ecossistêmicos, do que derrubada.

A amazônia além de sequestrar carbono da atmosfera, produz alimento e renda para comunidades que vivem do extrativismo sustentável – estima-se que 6 milhões de pessoas vivem da floresta; distribui chuva para outras regiões do Brasil, Bolívia, Uruguai, Chile, Paraguai e Argentina; tem papel fundamental na regulação do clima global. Também nela existe o potencial medicinal, lá estão espécies de plantas, fungos e animais que já deram compostos para a formulação de vários remédios usados hoje em dia. E muitas espécies ainda nem sequer foram encontradas e estudadas por estarem em áreas remotas, podendo ser extintas devido ao desmatamento e, com isso, eliminando chances de encontrar o tratamento eficaz para muitas doenças.

Segundo dados do PRODES, Projeto de Monitoramento do Desflorestamento da Amazônia Legal, nesse bioma houve um aumento de 9,5% entre agosto de 2019 e julho de 2020 em relação ao período anterior, o maior índice desde 2008. A área destruída no período, atingiu 11.088km², o equivalente a 4.430 campos de futebol por dia.

Mas nem tudo são más notícias, apesar dos cortes orçamentários na ordem de milhões que a Embrapa vem sofrendo, o que põem em risco a continuidade de pesquisas, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária continua fazendo um trabalho de excelência e já desenvolveu produção de carne com baixa emissão de carbono e, junto com a Nestle, desenvolvem protocolo para pecuária de leite de baixo carbono.

Por fim, já existe a consciência que as mudanças climáticas provocadas por fontes antrópicas são uma realidade e, se nada for feito, afetará de alguma forma a vida de todos. Mas as diferentes visões, percepções dos riscos e políticas a serem implementadas, também se tornam um desafio para um consenso global, tanto para governantes como pela população que precisa mudar hábitos consumistas.

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