Horta em vasos de plásticos, garrafas PET e pneus, será um alimento orgânico?

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Seja por segurança alimentar ou somente por prazer muitas pessoas estão preferindo plantar alguns alimentos. Muitos são plantados em garrafas PET ou até mesmo pneus, embora sempre surja a dúvida, será realmente um alimento saudável? faz mal à saúde e ao meio ambiente? veja as possibilidades.

Cultivo de orgânicos em vasos

Alimentos orgânicos são produtos cultivados de forma sustentável, sem que cause danos ao meio ambiente, livre de transgênicos e livre de todo tipo de contaminante, portanto livre de fertilizantes sintéticos e dos agrotóxicos que muitas vezes acabam por contaminar o próprio alimento produzido, o solo, o ar, as águas de rios e subterrâneas, e, por fim, os oceanos. 

Mas, e quando for cultivado em um recipiente apenas por prazer e consumo próprio? forma muito utilizada por quem não dispõe de espaço com terra suficiente para ter uma hortinha.
É nessa hora que entra em cena os vasos, muitos são comprados no comércio, outras pessoas preferem reutilizar alguns objetos descartados e utilizá-los ou confeccioná-los como vasos, como por exemplo as garrafas PET.

Mas mesmo nos vasos, o conceito de sustentabilidade precisa estar presente, nesse caso, adotar práticas que  não gerem poluentes. Então, se for cultivado em um recipiente, precisamos usar fertilizante também orgânico, um produto natural que pode ser húmus de minhoca, esterco de vaca ou de galinha curtido, ou o produto final da compostagem, entre outros. Mas também devemos estar atento para o material que foi fabricado o vaso em que será plantado a verdura, legume ou fruta.

De forma geral para as plantas, o melhor vaso é o de barro ou de algum outro material natural, pois devido a sua porosidade, auxilia na respiração das raízes e não retém excesso de umidade na terra, fato que causaria o apodrecimento das raízes e consequente morte da planta. E o fator mais relevante é que estão livres de substâncias tóxicas, portanto um produto que causa menos impactos ambientais negativos em comparação aos vasos feitos de plásticos.

Por outro lado, vasos de plásticos são os mais adquiridos para fins de cultivos de plantas devido ao valor mais baixo. Porém, certamente se já temos essa visão para os orgânicos é porque já nos preocupamos com a poluição ambiental e, nessa questão, esses vasos são produtos que geram poluentes tanto no processo de fabricação quanto no fim de sua vida útil, principalmente quando são descartados de forma incorreta e acabam sendo espalhados pelo meio ambiente, não sendo encaminhados a processos de reciclagem.

Poluição por microplásticos


Existem vários tipos de plásticos, os mais usados na confecção de vasos são o polipropileno (PP) e o polietileno (PE). Embora ofereçam menor risco de contaminação por suas substâncias quando novos, esses plásticos, assim como todos os outros, também se degradam e liberam microplásticos. Por exemplo: uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) constatou a presença de microplástico do tipo (PP) na ordem de 55%, e do tipo (PE) na ordem de 43%, na forma de fragmentos, fibras e microesferas, nas águas do lago Guaíba, o principal manancial de Porto Alegre.

A poluição por microplástico (partículas menores que 5 milímetros) e nanoplásticos, que são partículas ainda mais fragmentadas (menores que um milésimo de milímetro), está por todo lado e frequentemente é encontrada no solo, rios, águas subterrâneas, oceanos, alimentos, na urina e fezes humana. E um estudo recente encontrou essas micropartículas na placenta de mulheres, o que demonstra que podem circular pela corrente sanguínea. Para piorar, essas partículas de plástico ainda contém por meio de adsorsão, metais pesados e poluentes orgânicos persistentes, como agrotóxicos e outras substâncias que estão livres no ambiente e que se acumulam nos organismos aumentando os riscos à saúde.

E quanto as plantas, um artigo da Nature Sustainability traz informações sobre um estudo que comprova a absorção de microplásticos através de lacunas presentes nas raízes, que acabam servindo como vias de entrada.

Se ainda assim, a escolha for por esse material, melhor evitar plantar em vasos velhos que já estejam muito arranhados, rachados e se quebrando facilmente. E evitar plantar tuberosas como cenoura, beterraba, inhame...devido a parte comestível ficar mais próxima ou em contato com o plástico.

Plantio de horta em garrafa PET


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foto de hortasbio.abae.pt

A garrafa PET (Polietileno tereftalato) é uma das piores embalagens a ser reutilizada para essa finalidade, pois libera mais facilmente substâncias tóxicas podendo contaminar o alimento produzido. 

O que define uma substância como tóxica é a quantidade, se ela está em dose insegura no ambiente ou ao que estamos expostos. Apesar de algumas dessas substâncias se degradarem rapidamente no ambiente, há continua reposição devido ao uso excessivo e ao descarte irregular dos plásticos. E estudos demonstraram que mesmo doses muito baixas de bisfenol (BPA) provocam distúrbios em animais e humanos.

O bisfenol A (BPA) é um aditivo adicionado ao plástico para dar transparência e rigidez, está presente em muitos tipos de embalagens plásticas e, hoje, já existe até regulamentação proibindo o seu uso em algumas embalagens alimentares, como mamadeiras. Mas outros bifenóis utilizados como substitutos que são o BPS e BPF também contaminam produtos, organismos e ambiente. E os plásticos ainda contém outras substâncias tóxicas como os ftalatos, há vários artigos científicos publicados sobre o impacto negativo causado nos seres vivos pelo bisfenol A (BPA), assim como pelos ftalatos. Em humanos, essas substância são metabolizadas e excretadas, mas provocam sérios distúrbios endócrinos que causam graves doenças.

A garrafa PET em condições climáticas, como o calor do sol, a chuva, somado o contato com a terra, vão se degradando com o passar dos tempos, liberando substâncias químicas que ficarão disponíveis no substrato (terra) em que as plantas absorvem água e sais minerais necessários para seu desenvolvimento e, possivelmente, algumas dessas substâncias tóxicas.

Plantio de horta em pneus


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Foto por oestegoiano.com.br

Os pneus inservíveis são classificados como Classe II A, ou seja, não perigosos e não inertes devido a teores de metais em solução maiores do que os padrões estabelecidos pela NBR 10.004/2004 (BERTOLLO, JUNIOR & SCHALCH, 2002). Portanto a reutilização desses pneus em hortas ou jardins não é uma prática ecologicamente correta, pois eles são uma mistura complexa de substâncias químicas e que acabam sendo lixiviadas dessas carcaças, ainda mais se tratando de pneus já degradados pela rodagem e muitas vezes apresentando até rasgos.

Para termos uma ideia melhor do que são os pneus, aqui está a composição química dos pneus de uma fabricante europeia, que acabam tendo valores bem similares dos pneus fabricados em qualquer outra parte do mundo:
  • borracha / 27% sintética e 14% natural;
  • negro de fumo (Pó fabricado através da queima de óleos) ou sílica / 30%;
  • aço e têxtil / 15%;
  • óleos e resinas / 6%;
  • enxofre, óxido de zinco... / 6%;
  • aditivos  e outros / 2%.
Os pneus ainda apresentam aproximadamente 1,5% em peso de compostos de resíduos perigosos presentes na borracha ou como elemento de liga: compostos de zinco, compostos de cobre, chumbo, cádmio, soluções ácidas e compostos organohalogênicos.

Estudos realizados em quatro países (Canadá, Reino Unido, EUA, Austrália) demonstraram que pneus novos ou usados submersos em diferentes concentrações de água, apresentam toxicidade para alguns peixes. Já pedaços de pneus submersos em concentrações pequenas de água por vários dias a semanas, a tornam extremamente tóxica para peixes e invertebrados. E no lixiviado de pneu, quando a água percorre uma amostra de pneu, observou-se que o aço exposto tende a elevar os níveis de manganês e  ferro em águas subterrâneas, além dos níveis de alumínio, zinco e compostos orgânicos que também podem se elevar. No solo, tendem a ser elevados os níveis de cádmio, chumbo e zinco.

E ainda, nos Estados Unidos, cientistas pesquisaram e concluíram que a causa da mortalidade do salmão prateado é devido a um antioxidante presente em fragmentos de pneus, que escoa através de águas pluviais de rodovias para riachos onde o salmão migra para se reproduzir.

Como vimos, devido a tantas substâncias químicas na sua composição, os pneus estão longe de se tornarem uma solução ecológica quando reutilizados para fins de jardinagem e horticultura, principalmente quando utilizados vários pneus em um local. E para piorar, muitos deles acabam sendo pintados, o que aumentam as substâncias químicas a serem lixiviadas. Um argumento utilizado por muitas pessoas é que os pneus demoram 600 anos para se decompor, isso quer dizer que eles demoram esse tempo para se desfazerem por completo, um pneu que está na horta já está se degradando lentamente.

Plantar horta em garrafas PET e pneus não é ecologicamente correto


Muitas vezes é compartilhada exaustivamente a falsa ideia de ser ecologicamente correto plantar flores e alimentos em garrafas PET, pneus e outros materiais que de algum modo vão continuar se degradando e poluindo o ambiente.
                                                                                                                             
Podemos citar como ecologicamente correto  — quando as empresas assumem sua responsabilidade e realizam a logística reversa de seus produtos quando estes chegam no fim de sua vida útil — quando damos a destinação correta ao nosso lixo encaminhando para aterros sanitários ou reciclagem e reutilizamos somente o que não cause mais danos ao meio ambiente — quando repensamos a real necessidade de comprarmos mais material feito de plástico e com isso reduzimos o consumo e a poluição gerada por esse material, assim por diante.

É importante frisar que tanto a reciclagem quanto a reutilização são métodos importantes e diferentes de evitar o desperdício de energia e recursos naturais, também contribui para diminuir a poluição e o volume nos aterros sanitários. Mas isso não quer dizer que todo material pode ser reutilizado sem apresentar riscos à saúde e ao meio ambiente. Resumindo — reciclagem é quando um material retorna para o setor industrial sendo transformado novamente em matéria prima para dar origem a um novo produto — reutilização é quando um material é reaproveitado até para outra finalidade mas continua com as mesmas característica físicas e químicas, ou seja, uma garrafa PET reutilizada para plantar moranguinhos, mesmo que cortada na forma de vaso, continua sendo uma garrafa PET, assim como um pneu reutilizado como canteiro, continua sendo um pneu.

O reaproveitamento ou reúso de garrafas PET e pneus para a finalidade de produção caseira de alimentos pode até contribuir para a diminuição desses resíduos largados pelas ruas e terrenos baldios, mas na verdade, só estamos transferindo-os desses locais para nosso jardim ou horta, onde continuarão seu processo de degradação. Portanto, melhor encaminha-los a pontos de coleta para reciclagem. No caso dos pneus, por lei (CONAMA nº 416/2009) todo fabricante e revendedor de pneus, em ação articulada também com os consumidores finais, devem fazer a coleta desse material (logística reversa) para a correta destinação final.

Melhor plantar alimentos em vasos sustentáveis


Não podemos afirmar, sem estudo dos alimentos plantados nesses recipientes, que tais alimentos estarão contaminados, como também não podemos afirmar que serão um alimento saudável e orgânico. Mas os estudos existentes sobre a poluição por microplásticos e suas substâncias tóxicas, assim como suas consequências, como a absorção pelas plantas, bem como os resíduos perigosos lixiviados de pneus no ambiente, não deixam dúvidas que há possibilidade dessa forma de cultivo produzir alimentos que não sejam totalmente saudáveis.

E pela possibilidade, o melhor é escolher recipientes que não apresentem riscos de contaminação dos alimentos e não gerem poluentes como microplásticos e substâncias tóxicas. Existem diversas alternativas sustentáveis como vasos de barro e fibra de coco, reutilização de cascas de coco, caixotes de madeira que encontramos facilmente pela rua, bambu, filtros de barro descartados, etc. 

Só assim, poderemos dizer que estamos consumindo um produto produzido por nós e de forma orgânica, pois cultivar em um recipiente que não apresenta substâncias poluentes à nossa saúde, mas também ao meio ambiente, está totalmente dentro do contexto do mundo dos orgânicos.

Lembrando que um produto para ser comercializado como orgânico, deve possuir um selo de certificação, ou seja, precisa atender a critérios desde a sua produção até a comercialização. Mas isso não vem ao caso em produtos produzidos para consumo próprio.

Referências:

Plastic and plants: https://www.nature.com/articles/s41893-020-0583-9#citeas

Differentially charged nanoplastics demonstrate distinct accumulation in Arabidopsis thaliana: https://www.nature.com/articles/s41565-020-0707-4

The occurrence and transport of microplastics: The state of the science: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0048969720374672?via%3Dihub

Caracterização de nanoplásticos durante a degradação do poliestireno: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0045653515304094?via%3Dihub

Microplásticos como uma ameaça emergente aos ecossistemas terrestres: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/gcb.14020 

Determinação de componentes inorgânicos em plásticos pelo método de análise por ativação neurótica: http://pelicano.ipen.br/PosG30/TextoCompleto/Sandra%20Fonseca%20Mateus_M.pdf

Embalagens plásticas: tipos de materiais, contaminação de alimentos e aspéctos de legislação: http://formsus.datasus.gov.br/novoimgarq/20632/3399117_218117.pdf

Potential Environmental Impacts of Tyre Leachate: https://www.mfe.govt.nz/publications/waste/end-life-tyre-management-storage-options/5-potential-environmental-impacts-tyre

O que há em seus pneus: https://www.continental-tires.com/car/tire-knowledge/tire-basics/tire-mixture

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