Como geramos poluição por microplásticos no dia a dia

Os microplásticos já estão em toda parte, no ar que respiramos, nos ecossistemas marinhos e de água doce, nos alimentos, e, por consequência, no organismo humano, como já encontrado em fezes, urina e recentemente na placenta de mulheres grávidas.

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Produtos plásticos se degradam em microplásticos

A poluição por microplástico está em um nível de grande preocupação pelas organizações ambientais e comunidade científica que tentam criar meios para a sua redução. Só no fundo dos oceanos estima-se que existam 14 milhões de toneladas de microplásticos, é o que diz uma pesquisa australiana realizada pela agência de pesquisa científica CSIRO, e que coletou amostras de sedimentos oceânicos em até 3 mil metros de profundidade. O pior é que embora a quantidade de microplásticos no fundo dos oceanos sejam exorbitantes, segundo os cientistas, eles respondem por apenas uma fração dos 8 milhões de toneladas de plásticos que entram nos oceanos anualmente.

Toda essa poluição plástica chega nos oceanos de diversas formas, podemos citar a poluição direta nas praias através dos banhistas, o sistema pesqueiro com suas redes de pescas que se arrebentam e, principalmente, através dos esgotos e rios poluídos. Até mesmo pequenos córregos poluídos contribuem com suas águas para rios maiores, que também já poluídos desaguam no mar. Essa poluição plástica chega aos rios e oceanos na sua forma intacta (como uma garrafa PET, sacola plástica, etc.), ou já como microplástico.

O que são microplásticos?

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Microplástico em creme dental, por Costantina Cossu (via imaggeo.egu.eu)

Microplásticos são partículas menores do que 5 milímetros e estão classificados em microplásticos primários e secundários. Os primários são partículas adicionadas intencionalmente pelo setor industrial em produtos para diversas finalidades, como esfoliante em sabonete, creme corporal, pasta de dente; como matéria prima para produção de plásticos; como fluidos de perfuração; como fibras plásticas na produção de tecidos sintéticos, etc.

Já os microplásticos secundários são os liberados pela degradação de materiais plásticos maiores, como os fragmentos de sacolas, copos plásticos, redes de pesca, solas de calçados, isopor, esponjas, etc.

Como geramos microplásticos no dia a dia?

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lavagem de roupas sintéticas geram microplásticos

Como podemos notar, no nosso dia a dia geramos poluição por microplásticos, tanto primários quanto secundários, que nem percebemos. Isso devido ao uso de produtos de higiene e cosméticos que contém microesferas plásticas, mas também pelo uso de esponja de lavar louças, vassoura de fibras sintéticas, que pelo ato de varrição vão se degradando e liberando micropartículas no ambiente, e, principalmente, pela lavagem de roupas que possuem tecidos sintéticos, como nylon, acrílico, polyester, e até os feitos de PET reciclado.

As máquinas de lavar são uma das maiores geradoras de microplásticos devido esses tecidos soltarem fibras em cada lavagem. Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), a água que sai das lavadouras são responsáveis por 35% de todo microplástico presente nos oceanos. Essas máquinas lançam os microplásticos diretamente nos mananciais devido a maioria dos municípios não possuírem tratamento de esgoto e, mesmo os que possuem, devido as partículas serem muito pequenas, não há tecnologia para sua retenção nas estações de tratamento.

Quais as consequências do micoplástico para a saúde?

O fato é que uma parcela dessa poluição nos rios e mares acaba voltando para nossa mesa, pois animais aquáticos ingerem microplásticos fazendo com que entrem na cadeia alimentar. Segundo o periódico científico Environmental Science & Technology, um grupo de cientistas avaliaram que cada pessoa ingere ao ano, de 74 a 121 mil partículas microplásticas, através do consumo de alguns alimentos e pelo ar.

Os impactos negativos na saúde humana e animal ainda são estudados, embora alguns já sejam de conhecimento científico, como disfunção endócrinas, problemas na reprodução de espécies animais, bloqueio gastrointestinal em animais marinhos.

As partículas microplásticas, por si só, já possuem substâncias contaminantes, como o bisfenol e os ftalatos, que são causadores de problemas endócrinos, diversos tipos de câncer e infertilidade, tanto em animais como humanos. Mas podem conter ainda, por meio de retenção em sua superfície, metais pesados e poluentes orgânicos persistentes (POPs), como os agrotóxicos e outras substâncias usadas para diversas finalidades e que estão livres no ambiente. Dessa forma, os riscos para a saúde podem ser muito maiores.

Logo, o desafio para a comunidade científica é estudar os danos causados aos ecossistemas e sobre os seres vivos, desenvolver substitutos aos plásticos para algumas finalidades e também como reduzi-los do ambiente, num esforço conjunto com governos, setor empresarial e comunidade.

Um grande problema para o banimento do plástico em certos produtos é em relação ao valor mais baixo que os plastificantes possuem. Tecidos sintéticos são mais baratos, assim como as microesferas plásticas adicionadas em cosméticos e produtos de higiene. Já até existem microesferas feitas a partir de vegetais e minerais, mas parece que não é de interesse de grande parte do setor industrial.

Medidas regulamentares sobre os microplásticos

Sendo assim, devido aos problemas ambientais que os microplásticos ocasionam e a falta de interesse de muitas indústrias em arrumar substitutos para as microesferas plásticas, existe o projeto de lei (PL - 6528/16) que visa proibir a manipulação, fabricação, importação e comercialização, em todo território nacional, de produtos de higiene, cosméticos e perfumaria que contenham a adição intencional de microesferas de plástico (Brasil, 2016).

E a nível estadual, no estado do Rio de Janeiro, existe a lei - 8090/2018, em vigor e que proíbe a produção, fabricação, distribuição, comercialização, venda, estocagem, armazenagem, consignação para exportação e importação, divulgação, uso e descarte nos rios, córregos, lagos, lagoas, lagunas, no mar e no solo, de qualquer produto cosmético, de higiene pessoal e de limpeza que contenham microesfera de plástico (Rio de Janeiro, 2018).

O que fazer para gerar menos microplásticos?

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Vassouras de fibras sintéticas geram microplásticos ao varrer


Se você leu até aqui, já é um bom sinal que esse assunto é de seu interesse e que certamente você se sensibiliza com todos os problemas em questão. Portanto, algumas ações afim de minimizar a geração de microplástico, por menores que pareçam ser, fazem muita diferença no nível da poluição ambiental.

A redução de sacolas plásticas já se tornou uma realidade, mas podemos ir além com mais algumas atitudes: 
  • Valorize os tecidos naturais e reduza os sintéticos, até mesmo as roupas ditas "ecológicas" feitas de PET reciclado.
  • Dê preferência a tradicional vassoura de piaçava ou de pelo natural (crina de cavalo) em vez das vassouras de fibras sintéticas e as feitas de garrafas PET, que acabam gerando micropartículas conforme vão sendo usadas.
  • Observe se na prateleira do mercado não tem um produto similar e com embalagem que não utilize plástico.
  • Substitua esponja sintética por bucha vegetal.
  • Substitua fraldas e absorventes descartáveis por reutilizáveis, muitas mulheres já aprovaram os absorventes de pano, que traz benefícios à saúde e ao meio ambiente.
  • Dê preferência aos vasos de plantas de barro ou fibra natural.
  •  Prefira os prendedores de madeira e não de plásticos para estender roupas, já reparou que com o tempo os de plásticos se quebram em pedacinhos.
  •  Procure por cosméticos que não possuem microplásticos na sua composição, já existe esfoliante com microesferas naturais.
  • Substitua sabonete líquido, que possui embalagem plástica, por sabonete sólido.
  • Substitua escova de dente tradicional por de bambu.
  • Utilize barbeador elétrico em vez de barbeadores descartáveis.
  • Dê preferência aos potes de vidros, são mais caros mais acabam sendo mais econômicos devido a durabilidade maior que os de plásticos. E não tem risco de contaminar os alimentos.
  • Evite o uso de copos, talheres e pratinhos descartáveis.
  • Encaminhe para a reciclagem e também reutilize alguns materiais (desde que não gere microplástico). O Brasil é o 4° país no ranking dos maiores produtores de lixo plástico com 11,3 milhões de toneladas ao ano, mas recicla apenas 1,28% desse total.
Enfim, são muitas possibilidades. 

É inegável a grande utilidade que os plásticos possuem devido as suas propriedades e características que fazem com que sejam usados na fabricação de diversos produtos. Porém, devido ao acúmulo no meio ambiente, devemos repensar sobre a real necessidade de adquirirmos um novo produto. Melhor do que reciclar e reutilizar, é reduzir o consumo de plástico.

Voltando as vassouras, já percebeu que muitas estão vindo com o cabo plastificado só para ficarem mais bonitinhas? mas depois esse plástico fica soltando pedaços e poluindo. Nesse caso, é preciso ter senso crítico e pegar a vassoura ao lado que não tem cabo encapado. Acredite...suas ações individuais fazem muita diferença.

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